domingo, 20 de fevereiro de 2011

O pensamento ético de Sócrates (ou “Virtude é conhecimento”)



“Qual é o parasita mais resistente: Uma bactéria,

Um vírus, um verme intestinal? Uma IDEIA re-

Sistente a uma mente contagiosa...

Uma vez que uma IDEIA se apossa do cérebro é

Quase impossível erradicá-la. Uma ideia que este

Ja totalmente formada, totalmente compreendida."

(Dom Coob - Leonardo DiCaprio - "A Origem")
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No séc. VI a.C. surgiram os primeiros filósofos gregos, conhecidos como NATURALISTAS (ou Pré-Socráticos) por causa das preocupações teóricas que possuíam: o cosmo (natureza). Foram os primeiros a utilizar a lógica e a razão para conhecer os fenômenos, num mundo dominado pela explicação mítica. Nesse período, Atenas era apenas uma cidade como outra qualquer no mundo grego.

Em meados do séc V a.C., sob o comando de Péricles, a cidade de Atenas prosperou financeira, cultural e belicamente, consolidou a sua liderança e passou a comandar a "LIGA DE DELOS, espécie de confederação composta por várias cidades gregas. Mas o seu domínio sob o mundo grego não era completo, pois Esparta, cidade localizada no sul da Grécia, liderava outro bloco de cidades-estado que compunham a “Liga do Peloponeso”.

Mas Péricles não estava contente e objetivava alcançar o controle total da Grécia., então submeteu à assembléia a declaração de guerra contra Esparta. O espírito arrogante e orgulhoso do povo ateniense foi decisivo para que a proposta do estadista fosse aprovada sem ressalvas. Assim, em 431 a.C. começou a “Guerra do Peloponeso” entre as duas potências do mundo grego, que terminou em 404 a.C. com a vitória dos espartanos.

É nesse ambiente de intenso conflito e instabilidade política que Sócrates (469- a 399 a.C.) viveu. Ele caminhava pelas ruas de Atenas falando e discutindo com qualquer um que encontrava. Embora mais de 150 mil cidadãos estivessem concentrados atrás dos muros da cidade, durante a guerra contra Esparta, ele estava satisfeito em confundir as pessoas e pensamentos, com o objetivo de desconstruir as crenças não fundamentadas pela razão.

As preocupações do filósofo não eram com a natureza. Ele usou a nova maneira de pensar, instituída pelos naturalistas, para estudar as pessoas. O seu objeto era o indivíduo, em oposição à visão corrente dos atenienses que, pela prática democrática, priorizavam o coletivo. Sócrates, decididamente, não era um democrata.

Sócrates pensava que as pessoas deviam tomar decisões baseadas no próprio entendimento do que é certo ou errado. A liberdade de pensamento devia ser suprema, mesmo que gerasse atrito com os outros cidadãos. Ele dizia: “uma vida não examinada não é digna de ser vivida”.

Humilhados e com o império perdido na guerra, os atenienses procuraram alguém, dentro dos muros da cidade, para levar a culpa. Sócrates era crítico dos processos de pensamento e imaginação dos atenienses. Questionou a sede de glória e a maneira como os gregos viviam. Em 399 a.C. o filósofo foi acusado de tentar contra os deuses da cidade e corromper a juventude. Foi julgado e condenado à pena de morte, bebendo a cicuta.
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O INTELECTUALISMO SOCRÁTICO.


É comum o ser humano agir cotidianamente impulsionado pelas inclinações ou paixões em detrimento do que a razão orienta. O termo grego para designar esse tipo de conduta é AKRASIA, ou seja, aquele que fraquejou ao agir ou, como dizemos popularmente, “não teve força de vontade”. A razão, neste caso, indicou o caminho, mas o sujeito não teve disposição para seguí-lo. Este é, por excelência, para os gregos, o AGENTE ACRÁTICO, isto é, aquele cuja ação é produto dos desejos.

Mas para Sócrates o agente acrático é uma ficção, ele não existe. O que há é FALTA DE CONHECIMENTO. Se o agente agiu mal é porque não sabia como se conduzir em determinada situação. Por isso, para o filósofo, "virtude (areté) é conhecimento (episteme)", na medida em que somente ela torna a ALMA - que caracteriza o ser humano - boa e perfeita e conduz o homem às boas ações. Sendo virtuoso, ele agirá por "necessidade", posto que os valores alcançados pelo pensamento racional são universais e necessários e a ele se imporão.

Hoje a idéia de que "basta conhecer para ser bom" parece ingênua num mundo que introjetou o entendimento de que somente algum grau de COERÇÃO é capaz de evitar que o homem seja mau. Além do mais, essa maneira de compreender a conduta humana é deficitária porque isola o agente do contexto em que está inserido, desprezando outras variantes que também interferem em seu comportamento. Por isso, para compreendermos a filosofia de Sócrates, é necessário considerá-la no ambiente em que o filósofo viveu e os motivos que o levaram a prescrever esse caminho moral para os seus concidadãos.

A Atenas do séc V a.C. era uma Cidade-Estado envolta em permanentes conflitos. A linguagem escrita não era popular e o mito, enquanto oralidade, preponderava como forma de explicação da realidade. O ambiente ateniense era propício à proliferação de toda sorte de preconceitos e dogmas, capazes de determinar o destino das pessoas e da cidade. É nesse conjunto de circunstânicas que o filósofo se opôs aos sofistas, professores itinerantes que ganhavam a vida ensinando a arte da argumentação, segundo as conveniências e interesses momentâneos dos gregos. Sócrates achava que somente a busca da verdade era digna dos seres humanos, enquanto pensamentos universais e necessários. A instabilidade, manipulação e corrupção de sua época o incomodavam.

É nesse contexto que Sócrates, com o seu método, combateu os conceitos e crenças enraizadas no imaginário do povo ateniense. Ele atacava os preconceitos e dogmas mostrando as suas inconsistências internas, as suas ilogicidades. Ele demonstrava por relações lógicas que a apreensão do significado de certos conceitos, juízos e raciocínios não eram consistentes a ponto de serem considerados conhecimento. Por exemplo, diante da afirmação “as mulheres são inferiores” ele, pela comparação analítica dos conceitos, mostrava que o conceito-predicado “INFERIORES” não está contido e satisfaz plenamente o conceito-sujeito “MULHERES”. Dessa maneira ele demonstrava a inconsistência da forma ateniense de pensar. Mas para o filósofo esse “equívoco conceitual” não era intencional (voluntário), mas fruto da ignorância de um povo imerso em crenças não justificadas pela razão. Para Sócrates somente o conhecimento racional dos conceitos permitiria ao homem agir com vistas ao BEM (prosperidade), livrando-o dos preconceitos e das convenções que o subjugava. Mas o filósofo não ditou valores, apenas propôs um método para demolir as visões correntes, talvez para evitar que possíveis respostas definitivas se cristalizassem em novas convenções, contra as quais tanto lutou.

Embora as idéias de Sócrates se dirigissem ao campo moral, não há dúvida que possuíam um significativo apelo educacional e político, na medida em que valorizavam, como a mais expressiva manifestação da alma humana, o autodomínio (eukratéia), enquanto o controle de si mesmo ante os estados de prazer, dor e cansaço. Segundo o filósofo, todos seriam capazes de conhecimento (até o mais humilde cidadão), logo aptos para enfrentar o papel dos mitos, que impunham de fora as ideias e condutas a serem observadas. Pensava que o domínio da racionalidade sobre a animalidade levaria os gregos a se libertarem das amarras do preconceito e das imposições políticas do seu tempo. Surge assim o sujeito autárquico ou autônomo, a quem basta ser virtuoso para ser feliz. Defendendo o primado da razão, Sócrates dá o primeiro passo para conduzir a felicidade para o âmbito do indivíduo, isto é, enquanto elemento subjetivo.

Essa posição de conceber a virtude como ciência; e o vício, ignorância é conhecida como INTELECTUALISMO SOCRÁTICO. Nesse prisma, ninguém peca voluntariamente, mas fá-lo pela ignorância do bem. Embora essa forma de pensar o comportamento humano pareça anacrônica para o homem contemporâneo, ela ainda faz eco ao dar importância para a consciência como uma determinante da ação moral.

O homem, segundo Sócrates, sempre agiria de acordo com o que conhece e jamais escolheria aquilo que não é melhor para si. Embora hoje possamos facilmente refutar esse entendimento, reconhecendo a importância da vontade nas escolhas das ações que praticamos, por outro lado não podemos desprezá-lo pela importância que confere aos componentes racionais dos atos tidos como morais. Quanto mais consciente é o sujeito que os pratica, mais responsável pelas suas ações ele o é.

A proposta filosófica de Sócrates torna compreensível o destino que lhe foi reservado: a morte bebendo cicuta. Ao defender a supremacia do homem com relação a si mesmo, também o fez com relação à cidade, pois não se conformava com a maneira como os atenienses viviam.

Por isso, para o filósofo, o agente acrático não existia. Se alguém errou ao agir é porque ponderou equivocadamente as diversas possibilidades existentes para aquele caso e arriscou sem sucesso. Neste caso, houve um mau uso da razão. Sócrates tentou, a seu modo, acordar os seus concidadãos do "sono dogmático", extremamente lucrativo para a aristocracia ateniense.

"Quando alguém, por exemplo, adquire um automóvel, por meio de financiamento, e não consegue pagar o débito, não agiu por má-fe, mas porque calculou equivocadamente as obrigações mensais que teria que cumprir e apostou sem o amparo do conhecimento. Em outras palavras, o conhecimento que o agente possuía sobre o assunto não lhe permitiu avaliar corretamente o perigo que a operação financeira continha, logo, a falta de conhecimento o impediu de fazer a melhor escolha."

Para Sócrates, quem conhece necessariamente faz boas escolhas, porque não é guiado pelas paixões. Neste prisma um novo herói emergiu na Grécia Antiga. Não é mais aquele capaz de vencer os inimigos, os perigos, as adversidades e cansaços externos, mas capaz de vencer a si mesmo, e, desta forma, se aproximar dos deuses.

Um comentário:

  1. socrates foi um grande pensador, suas ideias e seu conhecimento eram muito profundo sobre o que pensava.

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