quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Feliz ano novo! (ou "Uma andorinha não faz verão")

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.
Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

(Felicidade – Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

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Sempre que começa um novo ano os meios de comunicação nos abarrotam com pesquisas de todo tipo. A estatística é algo que nos fascina. A Ciência Moderna provou que é possível pensar a realidade em termos matemáticos. Por isso não resistimos a uma tabela ou gráfico que nos “revele” com precisão como as coisas acontecem.
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Numa dessas, li no jornal “O liberal”, de 03 de janeiro deste ano, o resultado de uma "pesquisa científica" que assegura ser a casa própria o sonho dos belenenses para 2010. Em segundo lugar vem o carro, depois o emprego, eletro eletrônico, viagem, moto, aprovação no vestibular, eletrodoméstico, etc. A tabela chegou ao cúmulo de classificar os sonhos por faixa etária, classe econômica e sexo. Procurei a minha faixa etária e os sonhos correspondentes e logo fiquei frustrado. Nenhuma opção de sonho correspondia a minha expectativa. Como sou belenense e possuo a faculdade de sonhar, supuz que me enquadrara na famosa “margem de segurança”. Ufa, ainda bem que existe o percentual de erro!

Mas, apesar de tudo, não duvido que os bens materiais, mencionados na reportagem, possam causar grande satisfação e até serem o sustentáculo daquilo que chamamos felicidade. O homem moderno é inexoravelmente individualista. A nossa felicidade não está condicionada – como na antiguidade - ao bem estar do conjunto da coletividade. Nos consideramos felizes, mesmo que a cidade "pegue fogo”, desde que as nossas necessidades individuais sejam satisfeitas. Não é sem razão que a casa, o carro, o emprego, etc. compõem o nosso imaginário. Isso conduziu a felicidade para o interior do sujeito. Ela se tornou um sentimento, algo subjetivo. Por isso, uns se julgam felizes com a aquisição de determinados bens; outros, de outros. A felicidade passou a corresponder aos sonhos e estes são produtos do sonhador.

Não podemos, pois, estranhar que as coisas coletivas não nos apeteçam e as ocorrências gregárias nos causem infortúnio. Falamos do público como o espaço da corrupção, multas, violência, “casamento civil, impostos sobre a renda e missa de sétimo dia”. Eis a causa de os modernos não se identificarem com a vida pública.

Para os gregos antigos a felicidade estava no espaço objetivo, na seara política. O cidadão só se considerava feliz se a cidade, como um todo, também o fosse. A eudaimonia (felicidade) era a excelência no sentido do bom funcionamento das coisas da cidade. Os projetos individuais deveriam estar sintonizados com os coletivos, sem os quais o BEM, enquanto prosperidade, jamais seria atingido.

Mas, não podemos transportar um conceito no tempo sem fazer algumas considerações de natureza histórica. A Grécia antiga era dividida em cidades-estado independentes e com características próprias. A língua e a religião (o culto aos deuses gregos) eram o elemento comum. Não havia segurança no sentido da “política externa”. A invasão, submissão e destruição de cidades inteiras era um evento corriqueiro. Atenas, por exemplo, se conflitou com Esparta, depois ficou sob o poder macedônico e, em seguida, se prostrou ante o império romano. É fácil supor que, diante de perigos externos iminentes, o espírito coletivo se fortalecesse. Os povos antigos não tinham uma tranqüilidade civil que os autorizasse a pensar a felicidade consubstanciada em outro bem que não fosse a segurança da cidade.

Com o surgimento do Estado Moderno, liberalismo político e a consolidação do capitalismo o cenário interno e externo dos Estados-Nação se modificou. Karl Marx, filósofo alemão do séc XIX, percebeu a existência de classes sociais antagônicas no interior de uma mesma sociedade. Os conflitos que, predominantemente, ocorriam nas relações exteriores foram transportados para o interior, porém escamoteados por um instrumento que foi “descoberto” naquele século, como problema filosófico: a linguagem. O discurso ideológico seria capaz de dissimular o antagonismo existente na sociedade, apresentando-a, aos olhos dos incautos, como UNA e HARMÔNICA, ocultando a reificação do homem e a expropriação do produto do seu trabalho.

Não existindo, na visão comum, inimigos externos e internos a serem combatidos, posto que o monopólio da força e da violência foi transferido para o Estado – a lei do Talião caiu em desuso – o homem moderno se voltou para o seu interior, buscando naquilo que lhe agrada internamente a felicidade. O individual, o pessoal e o privado passaram a ser o campo da realização humana. A felicidade foi transportada para o EU.

Não quero aqui dizer que possamos, hoje, resgatar integralmente o conceito de eudaimonia (felicidade) como os antigos o entendiam, mas concebê-la como algo estritamente subjetivo possui as suas conseqüências. Ao desprezarmos a visão totalizadora da sociedade, ignorando que o bem pessoal está concatenado ao bem coletivo, contribuímos, mesmo que omissivamente, para o caos na vida com os outros homens e com a natureza. Basta considerarmos fenômenos como a violência urbana e as alterações climáticas para percebermos que elas se recrudesceram a partir do momento em que abandonamos a visão holística do cosmos, submetendo a natureza aos interesses egoístas do homem moderno. A noção de felicidade, como prosperidade do grupo, foi abandonada pelo bem estar do indivíduo. Essa postura propiciou alterações no ambiente natural e social capaz de, cedo ou tarde, cobrar o seu preço, afinal, a criatura sempre se volta contra o criador.

Essa mudança social, política e econômica da sociedade provocou uma alteração psicológica no sujeito. Alguém pode estudar num colégio particular, possuir plano de saúde privado e morar num condomínio fechado, e não cultivar o menor ressentimento ao ver os seus concidadãos estudando em precárias escolas, morrendo à míngua na porta dos hospitais públicos, além de habitar em áreas sem saneamento e com elevados índices de criminalidade. Ignoramos solenemente o que disse o filósofo grego Aristóteles:“Uma andorinha não faz verão”. Agimos com a leniência dos que conseguem alguns benefícios pessoais e se esquecem que a vida não pode ser pensada e vivida fora do contexto maior da existência, sob pena de atentarmos contra o nosso próprio bem estar.

De qualquer forma, apesar de tudo, não vejo razão para ignorar os rituais da nossa sociedade “civilizada”, logo desejo a todos os leitores (inclusive anônimos) do blog do Wolgrand um FELIZ ANO NOVO! Que em 2011 possamos cuidar melhor da nossa verdadeira casa: a cidade (apesar dos esforços contrários do Duciomar e Ana Júlia Carepa).

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