sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Do mito à razão (texto extraído do livro "Filosofando")

A CONSCIÊNCIA MÍTICA

1.     Introdução
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 Entre os inúmeros relatos de índios habitantes das terras brasileiras, encontramos o da origem do dia e da noite: ao transportarem um coco, ouviram sair de dentro dele ruídos estranhos e não resistiram à tentação de abri-lo, apesar de recomendações contrárias. Deixaram escapulir então a escuridão da noite. Por piedade divina, a claridade lhes foi devolvida pela Aurora, mas com a determinação de que nunca mais haveria só claridade, como antes, mas alternância do dia e da noite.

 Semelhantemente, os gregos dos tempos homéricos relatam a lenda de Pandora, que, enviada aos homens, abre por curiosidade a caixa de onde saem todos os males. Pandora consegue fechá-la a tempo de reter a esperança, única forma de o homem não sucumbir às dores e aos sofrimentos da vida.

 Observando os dois relatos, percebemos semelhanças: ambos falam de curiosidade, desobediência e castigo (a escuridão ou os males).

 A leitura apressada, na busca do sentido do mito, pode nos levar a pensar que se trata apenas de uma maneira fantasiosa de explicar a realidade ainda não justificada pela razão (no exemplo, a explicação da origem do dia e da noite e a da origem dos males). Essa compreensão do mito não esconde o preconceito comum de identificá-lo com as lendas ou fábulas, e, portanto, como uma forma menor de explicação do mundo, prestes a ser superada por explicações mais racionais.

 No entanto, a noção de mito é complexa e mais rica do que essa posição redutora. Mesmo porque omito não é exclusividade de povos primitivos, nem de civilizações nascentes, mas existe em todos os tempos e culturas como componente indissociável da maneira humana de compreender a realidade.

 Só para antecipar a discussão, vejamos alguns exemplos de diferentes tipos de mitos modernos.

 Quando alguém diz que o socialismo é um mito, pode estar dizendo que se trata de algo inatingível, de uma mentira, de uma ilusão que não leva a lugar nenhum. Mas, opondo-se ao sentido negativo de mito, outros irão ver positivamente o mito do socialismo como utopia, o lugar do "ainda-não", cuja força mobiliza as pessoas a construírem o que um dia poderá "vir–a ser".

 Em tempos difíceis, Hitler fez viver o mito da raça ariana, por ele considerada a raça pura, desencadeando movimentos apaixonados de perseguição e genocídio. Os contos de fada, as histórias em quadrinhos, sem dúvida nenhuma trabalham com imaginário e mitos universais como o do herói e o da luta entre o bem e o mal.

 Examinando as manifestações coletivas no cotidiano da vida urbana, descobrimos componentes míticos no carnaval, no futebol, ambos como manifestações delirantes do imaginário nacional e da expansão de forças inconscientes. Herói e o da luta entre o bem e o mal.

 Da mesma forma, os psicanalistas aproveitam a riqueza do mito e descobrem nele modelos que se acham nas raízes do desejo humano: a pedra angular da psicanálise se encontra na interpretação feita por Freud do mito de Edipo.

 Podemos ainda nos referir a um artista famoso como um mito: James Dean como o mito da "juventude transviada" ou, então, Marilyn Monroe ou Madonna como mito sexual.

 A lista possível das conotações diversas que o mito assume não termina aqui. Apenas quisemos mostrar como um conceito tão amplo e rico não se esgota numa só linha de interpretação.

 O mito não é resultado de delírio, nem uma simples mentira, O mito ainda faz parte da nossa vida cotidiana, como uma das formas indispensáveis do existir humano.

***nota
 Sófocles, dramaturgo grego do século V a.C. relata esse mito na tragédia Édipo rei. Em vão Édipo tenta fugir ao destino vaticinado pelo oráculo: matar o pai e desposar a própria mãe, Ao retomar omito grego, Freud refere -se ao "complexo de Édipo", que representa o desejo inconsciente de toda criança.

Gravura
                                                                                                                                                               
São Raimundo Nonato, no Piauí tornou-se grande centro arqueológico com a descoberta de registros rupestres que datam de até 12 mil anos antes da chegada dos colonizadores.

Nas representações figurativas reconhecem-se gestos que estariam ligados ao sistema simbólico da etnia como cerimoniais, ritos e mitos. Na ilustração, três registros encontrados em locais diferentes. (Anne -Marie e Niéde Guidon. Registros rupestres e caracterização das etnias pré-históricas.
VIDAL, Lux, org. Grafismo indígena. São Paulo, Nobel/Fapesp/Edusp, 1992.)


2. O mito entre os primitivos
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 Comecemos pelos povos primitivos, entre os quais o mito é estrutura dominante. Foi importante a contribuição dos antropólogos que, a partir do início do século, desenvolveram muitos contatos diretos com tribos das ilhas do Pacífico, da África e do interior do Brasil. Esses "trabalhos de campo", como são chamados, mostram que o mito vivo é muito mais expressivo e rico do que supomos quando apenas ouvimos o relato frio das lendas desligadas do ambiente que as fez surgir.

 Enquanto processo vivo de compreensão da realidade, o mito surge como verdade. Quando pensamos em verdade, é comum nos referirmos às explicações racionais em que a coerência lógica é garantida pelo rigor da argumentação e da exigência de provas. Mas não é essa a verdade do mito, que é verdade intuída, isto é, percebida de maneira espontânea, sem exigência de comprovações. O critério de adesão do mito é a crença, e não a evidência racional.

O mito é, portanto, uma intuição compreensiva da realidade, é uma forma espontânea de o homem situar-se no mundo. E as raízes do mito não se acham nas explicações exclusivamente racionais, mas na realidade vivida, portanto pré-reflexiva, das emoções e da afetividade.

 Ao entrar em contato com o mundo, o homem não é apenas uma "cabeça que pensa diante de um "mundo como tal". Entre os dois existe a fantasia, a imaginação. Portanto, antes de interpretar o mundo, o homem o deseja ou o teme. Nesse sentido, volta-se para ele ou dele se oculta.

 Por isso, o primeiro "falar sobre o mundo" está preso ao desejo humano de dominá-lo, afugentando a insegurança, os temores e a angústia diante do desconhecido e da morte.

Funções do mito

 Embora tenhamos nos referido ao mito enquanto forma de compreensão, a sua função não é, primordialmente, explicar a realidade, mas acomodar e tranquilizar o homem em um mundo assustador.
 Os primeiros modelos de construção do real são de natureza sobrenatural, isto é, o homem recorre aos deuses para apaziguar sua aflição. É um discurso de tal força, que se estende por todas as dependências da realidade vivida, e não apenas no campo sagrado (ou seja, da relação entre o homem e o divino), mas existe em toda a atividade humana.

 Como indicam os exemplos a seguir, o mito se manifesta:

§  Na preocupação com a origem divina da técnica: veja o mito de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dá–lo aos homens;
§  Na natureza divina dos instrumentos: ainda em nossos dias subsiste entre os povos primitivos o culto a certos utensílios, como a enxada ou o anzol, a lança ou a espada;
§  Na origem da agricultura: o mito indígena de Mani, de cujo túmulo nasce a mandioca, alimento básico; ou o mito grego de Perséfone, levada por Hades para seu castelo tenebroso, simbolizando o trigo enterrado como semente e renascendo como planta;
§  Na origem dos males: o mito de Pandora, como já vimos;
§  Na fertilidade das mulheres: os arunta, povo australiano, acham que os espíritos dos mortos esperam a hora de renascer e penetram no ventre das mulheres quando elas passam por certos locais;
§  No caráter mágico das danças e desenhos: quando o homem de Cro-Magnon fazia afrescos nas paredes das cavernas, representando a captura de renas, não pretendia propriamente enfeitar a caverna nem mostrar suas habilidades pictóricas, mas desejava agir magicamente, garantindo de antemão o sucesso da caçada futura.
§   
 Isso significa que no mundo primitivo tudo é sagrado e nada é natural.

 Para Mircea Eliade, filósofo romeno estudioso do mito e das religiões, uma das funções do mito é fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas.

 Dessa forma, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repetindo nos ritos as ações deles. Quando o missionário e etnólogo Strehlow perguntava aos arunta por que celebravam determinadas cerimônias, obtinha invariavelmente a mesma resposta: "Porque os ancestrais assim o prescreveram". Essa é também a justificativa invocada pelos teólogos e ritualistas hindus: "Devemos fazer o que os deuses fizeram no princípio"; "Assim fizeram os deuses, assim fazem os homens".

 Nos rituais, os arunta não se limitam a representar ou imitar a vida, os feitos e as aventuras dos ancestrais: tudo se passa como se estes aparecessem nas cerimônias. Nesse sentido, o tempo sagrado é reversível, ou seja, toda festa religiosa não é uma simples comemoração, mas torna-se a ocasião em que o sagrado acontece novamente e representa a reatualização do evento sagrado que teve lugar no passado mítico, "no começo".
 Na sua ação, o homem primitivo imita os deuses nos ritos que atualizam os mitos primordiais, pois, caso contrário, estão convencidos de que a semente e não brotará da terra, a mulher não será fecundada, a árvore não dará frutos, o dia não sucederá à noite.

 A forma sobrenatural de descrever a realidade é coerente com a maneira mágica pela qual o homem age sobre o mundo, como, por exemplo, com os inúmeros ritos de passagem do nascimento, do casamento, da morte, da infância para a idade adulta. Sem os ritos, é como se os fatos naturais descritos não pudessem se concretizar de fato.

 Segundo Mircea Eliade, "quando acaba de nascer, a criança só dispõe de uma existência física, não é ainda reconhecida pela família nem recebida pela comunidade.

São os ritos que se efetuam imediatamente após o parto que conferem ao recém-nascido o estatuto de 'vivo" propriamente dito; é somente graças a estes ritos que ele fica integrado na comunidade dos vivos. (...) No que diz respeito à morte, os ritos são tanto mais complexos quanto se trata não-somente de um "fenômeno natural" (a vida - ou a alma – abandonando o corpo), mas também de uma mudança de regime a o mesmo tempo ontológico e social: o defunto deve afrontar certas provas que interessam ao seu próprio destino post-mortem, mas deve também ser reconhecido pela comunidade dos mortos e aceito entre eles"

3. O homem primitivo e a consciência de si
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Como todo o real é interpretado por meio do mito, e sendo a consciência mítica uma consciência comunitária, o homem primitivo desempenha papéis que o distanciam da percepção de si como sujeito propriamente dito. Não é ele que comanda sua ação, já que sua experiência não se separa da experiência da comunidade, mas se faz por meio dela.

 Isso não quer dizer que não haja nenhum princípio de individuação, mas que o equilíbrio individual é feito de maneira diferente, mediante a preponderância do coletivo sobre o individual. Como diz Gusdorf, "a primeira consciência pessoal está, portanto, presa na massa comunitária e nela submergida. Mas esta consciência dependente e relativa não é uma ausência de consciência; é uma consciência em situação, extrínseca e não intrínseca, a individualidade aparecendo então como um nó no tecido complexo das relações sociais. E o “eu” se afirma pelos outros, isto é, ele não é pessoa, mas personagem"3.

 A decorrência do coletivismo é o dogmatismo: a consciência mítica é ingênua (no sentido de não crítica), desprovida de problematização e supõe a aceitação tácita dos mitos e das prescrições dos rituais. A adesão ao mito é feita pela fé, pela crença.

 Da visão dogmática decorre a moral dogmatizante, pois, na comunidade que vive sob a preponderância do mito, vimos que a dimensão pessoal se acha submetida ao coletivo, determinando a adaptação sem crítica do indivíduo às normas da tradição.

 No universo cuja consciência é coletiva, a transgressão da norma ultrapassa quem a violou. Por isso o tabu, proibição sempre envolta em clima de temor e sobrenaturalidade, ao ser transgredido, estigmatiza a família, os amigos e, às vezes, toda a tribo. Daí os ritos de purificação" e os rituais do "bode expiatório", nos quais o pecado é transferido só animal. É bom lembrar que, segundo o relato da tragédia, o crime de Edipo traz toda sorte de pragas para Tebas, e o sábio Tirésias vaticina que a cidade só se livraria quando encontrado o assassino de Laio.

4. Mito e religião
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 "No desenvolvimento da cultura humana, não podemos fixar um ponto onde termina o mito e a religião começa. Em todo curso de sua história, a religião permanece indissoluvelmente ligada a elementos míticos e repassada deles."4

 Podemos distinguir três fases na formação dos conceitos de deuses:

 A primeira fase é caracterizada pela multiplicidade de deuses momentâneos, assim chamados porque não perduram além do momento. São simplesmente excitações instantâneas, fugidias, às quais é atribuído o valor de divindade, e cuja fonte é a emoção subjetiva, marcada ainda pelo medo. Esses deuses não representam nem forças da natureza nem aspectos especiais da vida humana. Às vezes, trata-se de um conteúdo mental, como a alegria, a decisão, a inteligência; outras, de um objeto ou de qualquer realidade percebida como tendo sido repentinamente enviada do Céu.

 Na segunda fase, há a descoberta do sentimento da individualidade do divino, dos elementos pessoais do sagrado. O surgimento dessa nova etapa se dá à medida que a ação exercida pelo homem sobre o mundo se torna mais complexa, fazendo surgir a divisão do trabalho. Assim, toda atividade humana particular ganha o seu deus funcional, que vigia cada etapa do trabalho dos homens. A regulação da atividade encontra sua medida na própria periodicidade dos ciclos naturais (as estações do ano, o plantio, a colheita etc.). E cada ato, por mais especializado que seja, adquitrquire um significado religioso: o homem recorre a divindades que devem protegê-lo a cada momento. Entre os gregos, por exemplo, Deméter preside o ritmo das estações e das colheitas; Afrodite, o amor, e assim por diante.

2M. Eliade, O sagradoeoprofano, p. 143 -144.
3. usdorf , Mito e metafísica, p. 102 .
4E. Cassírer, Antropologia Filosófica, p. 143.

Ao mesmo tempo, o caráter existencial do mito conduz à prática de rituais mágicos, e a fé na magia constitui o despertar da confiança do homem em si mesmo - Ele não se sente mais à mercê das forças naturais e sobrenaturais e desempenha o seu papel, convicto de que o que acontece no mundo natural depende, em parte, dos atos humanos. Como exemplo, podemos citar os ritos mágicos da fertilidade, sem os quais se acreditava que nem a terra frutificaria nem a mulher conceberia. Convém lembrar aqui que a magia tanto pode ser usada para o bem como para o mal, uma vez que não se encontra ligada a princípios éticos.

 A terceira fase caracteriza-se pelo aparecimento do deus" pessoa.5 Ele é fruto do processo histórico que inclui o desenvolvimento linguístico e aparece quando o nome do deus funcional, derivado do círculo de atividade especial que lhe deu origem, perde a ligação com essa atividade e torna-se um nome próprio, constituindo um novo ser que continua a se desenvolver segundo suas próprias leis.

 O deus pessoal caracteriza-se por ser capaz de sofrer e agir como os homens. Ele atua de maneiras diversas e seus múltiplos nomes expressam diferentes aspectos de sua natureza, seu poder e sua eficiência. Como exemplo, a deusa grega Atenas, filha de Zeus, surge inicialmente como deusa guerreira, que protege os exércitos.

Aos poucos, à medida que a guerra se torna um trabalho, ela passa a proteger o trabalho em geral e, mais tarde, o trabalho intelectual especificamente e as artes. Ao mesmo tempo, é deusa da sabedoria, a protetora da cidade de Atenas.

 Como desenvolvimento da terceira fase, surgem as religiões monoteístas, decorrentes de forças morais e que se concentram no problema do bem e do mal. A natureza passa a ser abordada pelo lado racional, e não mais pelo emocional, como acontecia nas fases anteriores. O divino deixa também de ser concebido pelos poderes mágicos e passa a ser enfocado pelo poder de justiça. "O sentido é tico substituiu e suplantou o sentido mágico, a vida inteira do homem se converte numa luta constante pelo amor da justiça."5

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5. E. Cassirer. ,Antropologia Filosófica, p. 162.
 É pelo exercício do livre-arbítrio, agora que o homem entra em contato com o sagrado. Ao dar a sua livre adesão ao bem, torna -se um aliado da divindade, praticando o "dever " religioso.

  
5. O mito hoje
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 A consciência do homem pré-histórico que existe antes do advento da escrita, permanece ingênua e dogmática. No Capítulo 7(mito e razão), veremos a passagem para o pensamento reflexivo com a consequente quebra da unidade do mito. A nova forma de compreensão do mundo dessacraliza o pensamento e a ação (isto é, retira dele o caráter de sobrenaturalidade), fazendo surgir a filosofia, a ciência, a técnica, a religião.

 Perguntamos então: o desenvolvimento do pensamento reflexivo deveria decretar a morte da consciência mítica?

 Quando Augusto Comte, filósofo francês do século XIX e fundador do positivismo, explica a evolução da humanidade com a teoria dos três estados, define a maturidade do espírito humano pelo abandono de todas as formas míticas e religiosas. Com isso privilegia o fato positivo, ou seja, o fato objetivo, que pode ser medido e controlado pela experimentação.

 Essa posição opõe radicalmente o mito à razão, ao mesmo tempo que inferioriza o mito como tentativa fracassada de explicação da realidade. Ao criticar o mito, o positivismo se mostra reducionista, empobrecendo as possibilidades de abordagens do mundo abertas ao homem. A ciência é necessária, mas não é a única interpretação válida do real, nem é suficiente. Quando exaltada, faz nascer o mito do cientificismo: a crença na ciência como única forma de saber possível é mitos também prejudiciais, como o do progresso, cujo fruto mais amargo é a tecnocracia, e os da objetividade e neutralidade científicas (ver capítulo II - O conhecimento científico).

 Contrariando o positivismo, precisamos recuperar o mito, hoje, em sua importância como forma fundamental de todo viver humano. Ele é a primeira leitura do mundo, e o advento de outras abordagens do real não retira do homem aquilo que constitui a raiz da sua inteligibilidade. O mito é o ponto de partida para a compreensão do ser.

 Em outras palavras, tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo trabalho posterior da razão.

 A função fabuladora persiste não só nos contos populares, no folclore, como também na vida diária do homem ao proferir certas palavras ricas de ressonâncias míticas: casa, lar, amor, pai, mãe, paz, liberdade, morte, cuja definição objetiva não esgota os significados subjacentes que ultrapassam os limites da própria subjetividade. Essas palavras nos remetem a valores arquetípicos. Isto é, valores que são modelos universais, existentes na natureza inconsciente e primitiva de todos nós.

 O mesmo sucede com personalidades que os meios de comunicação se incumbem de transformar em imagens exemplares. Como artistas, políticos, esportistas, e que, no imaginário das pessoas, representam todos os tipos de anseios: sucesso, poder, liderança, sexualidade etc.

 Nas histórias em quadrinhos, o maniqueísmo retoma o arquétipo da luta entre o bem e o mal, e a dupla personalidade do super-herói atinge em cheio o desejo do homem moderno de superar a própria impotência, tornando -se um ser excepcional.

 O comportamento do homem também é permeado de "rituais", mesmo que secularizados: as comemorações de nascimentos, casamentos, aniversários, os festejos de ano novo, as festas de formatura, de debutantes, trote de calouros, lembram verdadeiros ritos de passagem.

 Até as mais racionais adesões a partidos políticos e a correntes de pensamento supõem esse pano de fundo, não-justificado e injustificável, em que o homem se move em direção a um valor que o apaixona e que só posteriormente busca explicitar pela razão.

 Mito e razão se complementam mutuamente. No entanto, o mito, recuperado no cotidiano do homem contemporâneo, não se apresenta com a abrangência que se fazia sentir no homem primitivo. O nascimento da reflexão permite a rejeição dos mitos prejudiciais ao homem. O exercício da crítica racional faz a diferenciação deles, legitimando alguns e negando outros que levam à desumanização.

 Para Gusdorf, "o mito propõe todos os valores, puros e impuros. Não é da sua atribuição autorizar tudo o que sugere. Nossa época conheceu o horror do desencadeamento dos mitos do poder e da raça, quando seu fascínio se exercia sem controle. A sabedoria é um equilíbrio. O mito propõe, mas cabe à consciência dispor. E foi talvez porque um racionalismo estreito demais fazia profissão de desprezar os mitos, que estes, deixados sem controle, tornaram-se loucos"6.
6 G. Gusdorf, Mito e metafísica, p. 308.

DO MITO À RAZÃO: NASCIMENTO DA FILOSOFIA NA GRÉCIA ANTIGA

Advento da Polis, nascimento da filosofia: entre as duas ordens de fenômenos os vínculos são demasiado estreitos para que o pensamento racional não apareça, em suas origens, solidário das estruturas sociais e mentais próprias da cidade grega.
(Jean-Pierre Vernant)

1. Introdução
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Todos nós sabemos que os primeiros filósofos da humanidade foram gregos. Isso significa que embora tenhamos referências de grandes homens na China (Confúcio, Lao Tsé), na Índia (Buda), na Pérsia (Zaratustra), suas teorias ainda estão por demais vinculadas à religião para que se possa falar propriamente em reflexão filosófica.

 O que veremos neste capítulo é o processo pelo qual se tornou possível a passagem da consciência mítica para a consciência filosófica na civilização grega, constituída por diversas regiões politicamente autônomas.

Periodização da história da Grécia Antiga

§  Civilização micênica -p desenvolve-se desde o início do segundo milênio a.C. e tem esse nome pela importância da cidade de Mícenas, de onde, no século XII a.C., partem Agamemnon, Aquiles e Ulisses para sitiar e conquistar Tróia.
§  Tempos homéricos (séculos XII a VIII a.C.) - são assim chamados porque nesse período teria vivido Homero (século IX ou VIII). Na fase de transição de um mundo essencialmente rural, o enriquecimento dos senhores faz surgir a aristocracia proprietária de terras e o desenvolvimento do sistema escravista.
§  Período arcaico (séculos VIII a VI a.C .) - Grandes alterações sociais e políticas com o advento das cidades–estados pólis) e desenvolvimento do comércio e consequente movimento de colonização grega.
§  Período clássico (séculos V e IV a.C -) - apogeu da civilização grega. Na política, expressão da democracia ateniense; explosão das artes, literatura e filosofia. Época em que viveram os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles.
§  Período helenístico (séculos III e II a.C.) - decadência política da Grécia, com o domínio macedônico e conquista pelos romanos. Culturalmente se dá a influência das civilizações orientais.
§   
2. A concepção mítica
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As epopéias
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 Os mitos gregos eram recolhidos pela tradição e transmitidos oralmente pelos aedos e rapsodos, cantores ambulantes que davam forma poética aos relatos populares e os recitavam de cor em praça pública. Era difícil conhecer os autores de tais trabalhos de formalização, porque num mundo em que predomina a consciência mítica não existe a preocupação com a autoria da obra, já que o anonimato é a consequência do coletivismo, fase em que ainda não se destaca a individualidade. Além disso, não havia a escrita para fixar obra e autor.

 Por esse motivo há controvérsia a respeito da época em que teria vivido Homero, um desses poetas, e até se ele realmente teria existido (séc. IX a.C.?).

É costume atribuir-lhe a autoria de dois poemas épicos (epopéias): Ilíada, que trata da guerra de Tróia (Tróia em grego é Ilion), e Odisséia, que relata o retorno de Ulisses a Ítaca, após a guerra de Tróia (Odisseus é o nome grego de Ulisses). Por vários motivos, inclusive pelo estilo diferente dos dois poemas, alguns intérpretes acham que são obras de diversos autores.

 De qualquer forma, as epopéias tiveram função didática importante na vida dos gregos porque descrevem o período da civilização micênica e transmitem os valores da cultura por meio das histórias dos deuses e antepassados, expressando uma determinada concepção de vida. Por isso desde cedo as crianças decoravam passagens dos poemas de Homero.

 As ações heroicas relatadas nas epopéias mostram a constante intervenção dos deuses, ora para auxiliar um protegido seu, ora para perseguir um inimigo. O homem homérico é presa do Destino (Moira), que é fixo, imutável, e não pode ser alterado. Até distúrbios psíquicos como o desvario momentâneo de Agamemnon são atribuídos à ação divina. É nesse sentido a fala de Heitor: "Ninguém me lançará ao Hades" contra as ordens do destino! Garanto–te que nunca homem algum, bom ou mau, escapou ao seu destino, desde que nasceu!"

 O herói vive, portanto, na dependência dos deuses e do destino, faltando a ele a nossa noção de vontade pessoal, de livre-arbítrio. Mas isto não o diminui diante dos homens comuns. Ao contrário, ter sido escolhido pelos deuses é sinal de valor e em nada tal ajuda desmerece a sua virtude.

 A virtude do herói se manifesta pela coragem e pela força, sobretudo no campo de batalha, mas também na assembléia, no discurso, pelo poder de persuasão.

O preceptor de Aquíles diz: "Para isso me enviou, a fim de eu te ensinar tudo isto, a saber fazer discursos e praticar nobres feitos".2 Nessa perspectiva, a noção de virtude não deve ser confundida com o conceito moral de virtude como o conhecemos posteriormente, mas como excelência, superioridade, alvo supremo do herói. Trata –se da virtude do guerreiro belo e bom.

A Teogonia
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 Hesiodo, outro poeta que teria vivido por volta do final do século VIII e princípios do VII a.C., produz uma obra com características que apontam para a época que se vai iniciar a seguir, com particularidades que tendem a superar a poesia impessoal e coletiva das epopéias.

Mas mesmo assim, sua obra Teogonia (teo: deus; gonia: origem) reflete ainda a preocupação com a crença nos mitos. Nela Hesíodo relata as origens do mundo e dos deuses, e as forças que surgem não são a pura natureza, mas sim as próprias divindades: Gaia é a Terra, Urano é o Céu, Cronos é o Tempo, surgindo ora por segregação, ora pela intervenção de Eros, princípio que aproxima os opostos.

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Hades: deus do Mundo Subterrãneo (em Roma: Plutão). Também se refere ao Mundo dos Mortos (Infernos). 2 Esta citação e as referidas no exercício 3 são da Íliada e Odisséia. apud Maria Helena Rocha Pere ira, Estudos de históriu da cultura clássica, p. 90, 98. 101 e 102.

3. A concepção filosófica
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 É no período arcaico que surgem os primeiros filósofos gregos, por volta de fins do século VII a.C. e durante o século VI a.C.

 Alguns autores costumam chamar de "milagre grego" a passagem do pensamento mítico para o pensamento crítico racional e filosófico. Atenuando a ênfase dada a essa "mutação", no entanto, alguns estudiosos mais recentes pretendem superar essa visão simplista e a-histórica, realçando o fato deque o surgimento da racionalidade crítica foi o resultado de um processo muito lento, preparado pelo passado mítico, cujas características não desaparecem "como por encanto na nova abordagem filosófica do mundo. Ou seja, o surgimento da filosofia na Grécia não foi o resultado de um salto, um "milagre" realizado por um povo privilegiado, mas a culminação de um processo que se fez através dos tempos e tem sua divida com o passado mítico.

 Algumas novidades surgidas no período arcaico ajudaram a transformar a visão que o homem mítico tinha do mundo e de si mesmo. São elas a invenção da escrita, o surgimento da moeda, a lei escrita, o nascimento da pólis (cidade -estado), todas elas tornando-se condição para o surgimento do filósofo. Vejamos como isso se deu.

A escrita
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 Geralmente a consciência mítica predomina nas culturas de tradição oral, onde ainda não há escrita. E interessante observar que mythos significa "palavra", "o que se diz". A palavra antes da escrita, ligada a um suporte vivo que a pronuncia, repete e fixa o evento por meio da memória pessoal. Aliás, etimologicamente, epopéia significa "o que se exprime pela palavra" e lenda é "o que se conta".

 É bem verdade que, de início, a primeira escrita é mágica e reservada aos privilegiados, aos sacerdotes e aos reis. Entre os egípcios, por exemplo, hieróglifos significa literalmente "sinais divinos".

 Na Grécia, a escrita surge por influência dos fenícios e já no século VIII a.C. se acha suficientemente desligada de preocupações esotéricas e religiosas.

Enquanto os rituais religiosos são cheios de fórmulas mágicas, termos fixos e inquestionados, os escritos deixam de ser reservados apenas aos que detêm o poder e passam a ser divulgados em praça pública, sujeitos à discussão e à crítica. Apenas um parêntese esclarecedor: isso não significa que a escrita tenha se tornado acessível a todos. Muito ao contrário, permanece ainda grande o número de analfabetos. O que está em questão, no entanto, é a dessacralização da escrita, ou seja, seu desligamento da religião.

 A escrita gera uma nova idade mental porque exige de quem escreve uma postura diferente daquela de quem apenas fala. Como a escrita fixa a palavra, e consequentemente o mundo, para além de quem a proferiu, necessita de mais rigor e clareza, o que estimula o espírito crítico. Além disso, a retomada posterior do que foi escrito e o exame pelos outros - não só de contemporâneos, mas de outras gerações - abrem os horizontes do pensamento, propiciando o distanciamento do vivido, o confronto das idéias, a ampliação da crítica.

 Portanto, a escrita aparece como possibilidade maior de abstração, uma reflexão da palavra que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento.

A moeda

 Por volta dos séculos VIII a VI a.C. houve o desenvolvimento do comércio marítimo decorrente da expansão do mundo grego mediante a colonização da Magna Grécia (atual sul da Itália) e Jõnia (atual Turquia). O enriquecimento dos comerciantes promove u profundas transformações decorrentes da substituição dos valores aristocráticos pelos valores da nova classe em ascensão.

 Na época da predominância da aristocracia rural, cuja riqueza se baseava em terras e rebanhos, a economia era pré-monetária e os objetos usados para troca vinham carregados de simbologia afetiva e sagrada, decorrente da posição social ocupada por homens considerados superiores e do caráter sobrenatural que impregnava as relações sociais.

 A fim de facilitar os negócios, a moeda, que tinha sido inventada na Lídia, aparece na Grécia por volta do século VII a.C. A moeda torna-se necessária porque, com o comércio, os produtos que antes eram feitos sobretudo com valor de uso passam a ter valor de troca, isto é, transformam-se em mercadoria.  Daí a exigência de algo que funcionasse como valor equivalente universal das mercadorias.

 A invenção da moeda desempenha papel revolucionário, pois está vinculada ao nascimento do pensamento racional. Isso porque passa a ser emitida e garantida pela cidade, revertendo benefícios para a própria comunidade. Além desse efeito político de democratização, a moeda sobrepõe aos símbolos sagrados e afetivos o caráter racional de sua concepção: muito mais do que um metal precioso que se troca por qualquer mercadoria, a moeda é um artifício racional, uma convenção humana, uma noção abstrata de valor que estabelece a medida comum entre valores diferentes.

A lei escrita

 Drácon (séc. VII a.C.), Sólon e Clistenes (séc. VI a.C.) são os primeiros legisladores que marcam uma nova era: a justiça, até então dependente da arbitrariedade dos reis ou da interpretação da vontade divina, é codificada numa legislação escrita. Regra comum a todos, norma racional, sujeita à discussão e modificação, a lei escrita passa a encarnar uma dimensão propriamente humana.

 As reformas provocadas pela legislação de Clístenes fundam a pólis sobre uma base nova: a antiga organização tribal é abolida e estabelecem-se novas relações, não mais baseadas na consanguinidade, mas determinadas por nova organização administrativa. Tais modificações expressam o ideal igualitário que prepara a democracia nascente, pois a unificação do corpo social abole a hierarquia fundada no poder aristocrático das famílias.

O cidadão da pólis

 Jean-Pierre Vernant, helenista e pensador francês, vê no nascimento da pólis (por volta dos séculos VIII e VII a.C.) um acontecimento decisivo que "marca um começo, uma verdadeira invenção", que provocou grandes alterações na vida social e nas relações entre os homens.

 A originalidade da cidade grega é que ela está centralizada na agora (praça pública), espaço onde se debatem os problemas de interesse comum. Separam–se na pólis o domínio público e o privado: isto significa que ao ideal de valor de sangue, restrito a grupos privilegiados em função do nascimento ou fortuna, se sobrepõe a justa distribuição dos direitos dos cidadãos enquanto representantes dos interesses da cidade. Está sendo elaborado o novo ideal de justiça, pelo qual todo cidadão tem direito ao poder. A nova noção de justiça assume caráter político, e não apenas moral, ou seja, ela não diz respeito apenas ao indivíduo e aos interesses da tradição familiar, mas se refere a sua atuação na comunidade.

 A pólis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana do conflito, da discussão, da argumentação. O saber deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão.

 A expressão da individualidade por meio do debate faz nascer a política, libertando o homem dos exclusivos desígnios divinos, e permitindo a ele tecer seu destino na praça pública. A instauração da ordem humana dá origem ao cidadão da pólis, figura inexistente no mundo coletivista da comunidade tribal.

 Portanto, o cidadão da pólis participa dos destinos da cidade por meio do uso da palavra em praça pública. Mas para que isso fosse possível, desenvolveu-se uma nova concepção a respeito das relações entre os homens, não mais assentadas nas suas diferenças, na hierarquia típica das relações de submissão e domínio. Ou seja, "os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem de uma certa maneira "semelhantes" uns aos outros". De início a igualdade existe apenas entre os guerreiros, mas "essa imagem do mundo humano encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito, o de isonomia: igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder"3.

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2.       J.-P. Vernant, As origens do pensamento grego, p. 42.

 O apogeu da democracia ateniense se dá no século V a.C., já no período clássico, quando Péricles era estratego. É bem verdade que Atenas possuía meio milhão de habitantes, dos quais 300 mil eram escravos e 50 mil metecos (estrangeiros); excluídas mulheres e crianças, restavam apenas 10% considerados cidadãos propriamente ditos, capacitados para decidir por todos.

 Por isso, quando falamos em democracia ateniense, é bom lembrar que a maior parte da população se achava excluída do processo político. Aliás, quanto mais se desenvolvia a ideia de cidadão ideal, com a consolidação da democracia, mais a escravidão surgia como contraponto indispensável, na medida em que ao escravo eram reservadas as tarefas consideradas "menores" dos trabalhos manuais e da luta pela sobrevivência. Mas não resta dúvida de que, na fase aristocrática anterior, havia ainda outros tipos de privilégios. O que enfatizamos no processo é a mutação do ideal político e o surgimento de uma concepção nova de poder.

 O ideal teórico da nova classe dos comerciantes será elaborado pelos sofistas. filósofos do século V a.C. (ver Capítulo 19 - O pensamento político grego).

O nascimento do filósofo

 A grande aventura intelectual dos gregos não começa propriamente na Grécia continental, mas nas colônias: na Jônia (metade sul da costa ocidental da Ásia Menor) e na Magna Grécia (sul da península itálica e Sicilia).

 Os primeiros filósofos viveram por volta do século VI a.C. e, mais tarde, foram classificados como pré-socráticos (a divisão da filosofia grega se centraliza na figura de Sócrates) e agrupados em diversas escolas. Por exemplo, escola jônica (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Empédocles). Escola itálica (Pitágoras), escola eleática (Xenófanes, Parmênides, Zenão); escola atomista (Leucipo e Demócrito).

 Os escritos dos filósofos pré-socráticos desapareceram com o tempo, e só nos restam alguns fragmentos ou referências feitas por filósofos posteriores. Sabemos que geralmente, escreviam em prosa, abandonando a forma poética característica das epopéias, dos relatos míticos.

 É interessante notar que, enquanto Hesíodo, ao relatar o princípio do mundo (cosmogonia) e dos deuses (teogonia), refere-se a sua gênese ou origem, as preocupações dos primeiros pensadores levam à elaboração de uma cosmologia, pois procuram a racionalidade do universo. Isso significa que, ao perguntarem como seria possível emergir do Caos um "cosmos" - ou seja, como da confusão inicial surgiu o mundo ordenado -, os pré-socráticos procuram o princípio (a arché) de todas as coisas, entendido este não como o que antecede no tempo, mas enquanto fundamento do ser. Buscar a arché é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas.

A filosofia surgiu no século VI a.C. nas colônias gregas da Magna Grécia e da Jônia. Só no século seguinte desloca-se para Atenas, centro da fermentação cultural do período clássico.

 As respostas dos filósofos à questão do fundamento das coisas são as mais variadas. Cada um descobre a arché, a unidade que pode explicar a multiplicidade: para Tales é a água; para Anaximenes é o ar; para Demócrito é o átomo; para Empédocles, os famosos quatro elementos, terra, água, ar e fogo, teoria aceita até o século XVIII. Quando foi criticada por Lavotsier.

 3.     Mito e filosofia: continuidade e ruptura

 Já podemos observar a diferença entre o pensamento mítico e a filosofia nascente: os filósofos divergem entre si e a filosofia se distingue da tradição dogmática dos mitos oferecendo uma pluralidade de explicações possíveis. Assim justificamos a perspectiva comumente aceita da ruptura entre mythos e logos (razão).

 No entanto, estudiosos como Cornford se preocuparam em encontrar os elementos que, apesar das diferenças, mostrassem como o pensamento filosófico nascente ainda tinha vinculações com o mito. Segundo Vernant, Cornford observou que a física jônica é a expressão do pensamento filosófico racional e abstrato, pois recorre a argumentos e não a explicações sobrenaturais. No entanto, se a atitude do filósofo o distingue do homem mítico, o conteúdo da filosofia permanece semelhante ao do mito, e dele o aproxima. Por exemplo, Hesíodo relata na Teogonia como Gaia (Terra) gera sozinha, por segregação, o Céu e o Mar; depois, a união da Terra com o Céu, presidida por Eros (princípio de coesão do Universo), resulta na geração dos deuses. Ora, examinando os textos dos filósofos jônicos, Cornford descobriu neles a mesma estrutura de pensamento existente no relato mítico: os jônios afirmam que, de um estado inicial de indistinção, separam-se pares opostos (quente e frio, seco e úmido) que vão gerar os seres naturais (o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido), Para os filósofos, a ordem do mundo deriva de forças opostas que se equilibram reciprocamente, e a união dos opostos explica os fenómenos meteóricos, as estações do ano, o nascimento e a morte de tudo que vive,4

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4s.-p. Vemant. Mito e pensomento entre os gregos, p. 297.
 Portanto, na passagem do mito à razão, há continuidade no uso comum de cenas estruturas de explicação. Na concepção de Cornford não existe "uma imaculada concepção da razão", pois o aparecimento da filosofia é um fato histórico enraizado no passado.

 Embora existam esses aspectos de continuidade, a filosofia surge como algo muito diferente, pois resulta de uma ruptura quanto à atitude diante do saber recebido. Enquanto o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a filosofia problematiza e, portanto, convida a discussão. Enquanto no mito a inteligibilidade é dada, na filosofia ela é procurada. A filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na explicação dos fenômenos.

 Ainda mais: a filosofia busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos, o debate e a discussão, organizasse em doutrina e surge, portanto, como pensamento abstrato.

 Na nova abordagem do real caracterizada pelo pensamento filosófico, podemos ainda notar a vinculação entre filosofia e ciência. O próprio teor das preocupações dos primeiros filósofos é de natureza cosmológica de maneira que, na Grécia Antiga, o filósofo é também o homem do saber científico. Só no século XVII as ciências encontram seu próprio método e separam -se da filosofia, formando as chamadas ciências particular es (ver Capitulo 14- A ciência na Idade Moderna).




domingo, 14 de julho de 2013

O pensamento pedagógico de Platão (Ou ”A razão como critério educacional”)


 
Os outros animais, ao nascerem, recebem, em seu código genético, tudo que é necessário para viverem neste mundo. O homem, ao revés, é um ser incompleto, logo precisa ser EDUCADO para alcançar a excelência na forma de agir. Para a elite grega, esse nível de comportamento, teria como pressuposto o bom uso daquilo que caracteriza o homem, a RAZÃO, pois somente com a utilização adequada desse instrumento ele seria capaz de controlar as paixões e alcançar a EUDAIMONIA - que hoje, precariamente, traduzimos por FELICIDADE.

E para a realização da eudaimonia Platão concebeu a necessidade de a cidade ser JUSTA e os cidadãos VIRTUOSOS. Mas o exercício da virtude exige que os homens utilizem corretamente a RAZÃO para não tomar o ilusório como verdadeiro. E como a verdade é UNA, há de se supor que numa cidade governada pelos mais aptos intelectualmente não haveria disputas internas, nem partidos políticos, pois todos chegariam ao conhecimento da realidade e aplicariam a justiça (bom governo).

Vê-se claramente que para falarmos da educação em Platão, precisamos navegar pelo pensamento POLÍTICO, ÉTICO, EPISTEMOLÓGICO, PSICOLÓGICO e METAFÍSICO do filósofo.

Do ponto de vista psicológico, a cidade justa não seria norteada por princípios igualitários ou democráticos, mas seria dividida em estamentos, de acordo com as características intelectuais de cada cidadão. Estas características aflorariam de acordo com a parte da alma (dividida por Platão em três) que preponderasse sobre as demais. Se a parte concupiscente se sobrepujasse, o cidadão seria da classe dos artesãos; no caso de a parte irascível se impor, o cidadão pertenceria à classe dos militares; já a supremacia da parte racional da alma seria própria dos que deveriam exercer o governo da cidade. Assim, cada um cumpriria com o que a sua vocação determinasse para que o todo funcionasse como uma máquina bem aprumada. A preocupação do filósofo é com a vida coletiva. Por isso a eudaimonia está para a vida pública, como a felicidade (no sentido moderno) está para o ambiente privado.

Porém, mesmo sendo a realidade UNA e os sábios capazes de intuí-la, o que garantiria que na cidade platônica não existiriam dissidências, gerando partidos políticos e até uma guerra civil?

A resposta para essa questão tem cunho EPISTEMOLÓGICO e se baseia no princípio da ética socrática, segundo o qual “CONHECIMENTO é VIRTUDE”, isto é, quem conhece sempre age corretamente, na direção do BEM, com vistas ao que lhe é proveitoso. Em outros termos, somente age mal quem ignora. Desta forma, não existiriam desacordos políticos se os cidadãos, pelo menos os mais aptos, fossem educados para o conhecimento da verdade, ou seja, se se tornassem filósofos.

Ora, se os governantes-filósofos sempre agiriam no sentido do BEM, Platão, em “A República”, dedicou-se a demonstrar como eles seriam capazes de conhecer o real (a verdade) e assim não praticariam a injustiça pensando ser a justiça, nem divergiriam sobre o que ela é. A demonstração disso constitui o projeto pedagógico do filósofo.

A EDUCAÇÃO objetivaria formar o cidadão para a Pólis.

É oportuno lembrar que Platão viveu em Atenas, durante a tirania dos trinta, logo após a guerra do Peloponeso e a queda de Péricles, quando imperava a “democracia” como regime político. A sua crítica à Democracia se deve tanto pela irracionalidade do sistema, como pelo individualismo e espírito materialista que naquele momento imperava. Talvez por isso o espírito coletivo de Esparta lhe tenha servido de modelo. Na cidade ideal o governante-filósofo seria o agente capaz de fazer boas leis que garantiriam a harmonia e a superação das contradições existentes.

Platão parte do fato de a atividade racional ser capaz de organizar o pensamento com base em uma tradição, sempre com vistas ao UNO (que tem caráter universal), logo se opondo ao pensamento que tem natureza PARTICULAR e que se fundamenta nos interesses e nas conveniências humanas (Senso Comum).  

Quem está em nível empírico compreende o certo e o errado em termos do que dá LUCRO, do que faz BEM e do que é BOM para si próprio, contrariando os objetivos coletivistas da filosofia platônica, que tem como escopo o bem COLETIVO, enquanto o que sintetiza todos os interesses em um só.   

Com o Mito da Caverna, que está no Livro VII de “A República”, Platão explica como o indivíduo que está no mundo sensível (fundo da caverna) constrói uma visão SECTÁRIA do mundo, na qual as coisas são vistas segundo os seus interesses. Uma árvore, por exemplo, é vista a partir dos frutos, da sombra e da madeira que propicia ao homem; jamais a partir da função que exerce no cosmos. Surge, assim, um desrespeito pelas coisas do mundo, característico da visão demagógica.

No Mito, o projeto pedagógico/filosófico platônico é representado pelo prisioneiro que se livra dos grilhões e sai da caverna contemplando as coisas como elas, de fato, são. Essa passagem da alegoria expressa a necessidade que o homem educado tem de abandonar o que provem dos sentidos para, por um processo de anamnese ou reminiscência, contemplar a realidade que está no mundo das formas.

Embora a contemplação da realidade exija um grau de abstração, Platão não exclui da cidade o prazer (hedonismo), mas o coloca sob os ditames da razão para que o seu exercício não alimente o sectarismo, que é um obstáculo para a busca do BEM.

É oportuno lembrar que o BEM não deve ser compreendido no sentido moral, mas ONTOLÓGICO, enquanto princípio que guia o homem na contemplação do cosmo e cuja essência é o UNO, ou seja, o que reúne o múltiplo na unidade. Isso significa que Platão antecipa aquilo que o homem moderno, inexoravelmente, perceberá: que apenas há ciência (episteme) do UNIVERSAL. A opinião (doxa) ou senso comum está adstrito ao particular. 

Isso explica porque quem vive no âmbito empírico (do que agrada) tende ao sofrimento, haja vista os objetos individuais/concretos estão sujeitos ao DEVIR, logo o que é prazeroso hoje, certamente amanhã não o será. Já os prazeres da alma são permanentes e estáveis por dependerem dos seres que estão no mundo inteligível, que não se alteram por estarem ligados ao UNO.

O conhecimento verdadeiro (episteme) permite a ação virtuosa na Pólis. Como visa o que é estável, permite harmonizar os diversos elementos que compõe o complexo humano com vistas à JUSTIÇA, que se assemelha ao BOM e ao BELO. A cidade justa é a cidade equilibrada. Aquilo que no “Protágoras” aparece como a virtude de medir; em “A República”, Platão chama de a virtude da temperança, que é uma espécie de ordem e de domínio entre os prazeres e apetites.

É nesse contexto que a cidade justa para Platão deve garantir “aquilo que é devido a cada pessoa, segundo a sua natureza”, posto que assim os homens, que não são iguais do ponto de vista de suas potencialidades, possam exercer, na cidade, as funções que melhor desempenham para o bem de todo o organismo social.

A EDUCAÇÃO, assim, possuiria um escopo político. Por isso ela não deveria uniformizar os cidadãos, mas teria a função de fazer brotar aquilo que a natureza de cada indivíduo permitir, de acordo com o interesse social. O filósofo seria a expressão mais elevada desse ideal pedagógico, por ser o indivíduo apto a guiar os demais para a contemplação do BEM (representado pela luz do sol na alegoria da caverna).    

Esse projeto, segundo Platão, estaria ameaçado pela ação dos demagogos, que são indivíduos que não estão preocupados com a verdade (episteme), mas com o que agrada (doxa, opinião), assim não estariam comprometidos com a harmonia da cidade, mas visariam benefícios pessoais por meio da manipulação das massas (os prisioneiros da caverna). Por esse motivo Platão concebe a EDUCAÇÃO como uma atividade que tem um objeto específico, as FORMAS (eidos), enquanto entidades que funcionam como modelos, paradigmas, por não estarem sujeitas à mudança.

Mas as FORMAS somente são perceptíveis pelo intelecto. No mundo inteligível existiriam formas de objetos concretos, valores morais e estéticos, e até de entidades matemáticas. Assim, a frase “o dedo indicador é grande” está correta quando o dedo indicador é colocado diante do dedo mínimo, mas não se mantém correta quando o dedo indicador é posto diante do dedo médio. Isso prova que dependendo do contexto o dedo indicador poderá ser pequeno ou grande, logo não se pode adquirir conhecimento quando se trabalha com elementos particulares e sensíveis, cujo resultado, dependendo da situação, oscila. O conhecimento, neste caso, reclama pela busca da forma da grandeza. Da grandeza em si.    

Para explicar o processo de educação dos que seguirão para o conselho dos sábios, Platão, no Mito da Caverna, faz as distinções entre o mundo INTELIGÍVEL e o mundo SENSÍVEL. Este mito relata que os homens estariam no mundo sensível, que não é uma realidade perfeita. Andam, comem, dormem – assim vivem no mundo que é continuamente mutável, do fluxo das alternâncias, mas podem, se tiverem um treinamento adequado, captar o que está na realidade não sensível, no mundo real daquilo que não muda: o lugar das formas  

A pedagogia filosófica é, portanto aquela que impulsiona o homem aos UNIVERSAIS, tomando-se como real, sabendo, então, que o sensível, ainda que existente, é ilusório. Esse processo se iniciaria com o estudo da matemática e alcançaria um grau maior de abstração na dialética, que, segundo Platão, viabilizaria a visão das formas.

Sem o amparo do conhecimento das formas, que são entidades objetivas (não devemos confundir com os pensamentos humanos, que são subjetivos), surge um campo favorável a atuação dos demagogos. Neste momento, o critério utilizado não é o de quem sabe, mas o de quem agrada, o que, no campo político, objetiva angariar o apoio da maioria pelo viés do que é conveniente, porém transitório.

Não é difícil entender porque Platão não simpatizava com a Democracia, onde o critério para as decisões é o da maioria, logo um campo fértil para a manipulação, onde as ações visam o que AGRADA a maioria. Nesse regime a racionalidade não determina as ações necessárias para o bom funcionamento da cidade, mas vence o pensamento que atende aos interesses da maioria. É previsível, nesse contexto, que as coisas tendam ao caos, facilitando o aparecimento do SALVADOR DA PÁTRIA, ou seja, do tirano.

Em contraposição, Platão considera a EDUCAÇÃO como instrumento de resistência a toda sorte de controle social pelas ações demagógicas. Se as pessoas pensassem por conta própria, tirando de dentro de si mesmas a compreensão das coisas do mundo, não se moveriam por INTERESSES, mas por PRINCÍPIOS racionais, e, como os filósofos, seriam guiadas pela idéia suprema do BEM.

No prisma da visão totalizadora do pensamento platônico, tudo que une é bom e tudo que separa (sectarismo) é ruim. Assim, EDUCAR é tirar de dentro o conhecimento. Ver as coisas como são. Jamais como queremos que sejam. Platão não separa a filosofia da política, da pedagogia e da arte, porque educar é fazer com que cultivemos aquilo que é próprio dos seres humanos, isto é, o pensamento racional, como condição para uma vida gregária equilibrada.   

terça-feira, 2 de julho de 2013

O amor platônico (Ou "O amor não faz o amante, mas o sábio")


Em geral as pessoas falam em Amor Platônico, referindo-se, vagamente, a um sentimento no qual há ausência de interesses e gozos materiais, como um fenômeno de natureza estritamente espiritual. Com algum esforço e muita leniência essa definição pode ser aceita. A rigor, o Amor Platônico é muito mais que isso e, neste pequeno artigo, espero, de forma simples e sucinta, superar esse mal entendido.

Mas para compreendermos o nosso objeto precisamos, antes, dominar algumas noções da metafísica, psicologia e epistemologia platônicas.

Para o filósofo o mundo real não é este que captamos pelos sentidos, mas o que está no “mundo das ideias (ou das formas)”. Os entes verdadeiros que habitam nesse mundo somente podem ser conhecidos pela alma humana, posto que conviveu com eles antes de se aprisionar em um corpo.  A incorporação desvanece a  contemplação que ocorreu no mundo das formas, e para recuperá-la é necessário um esforço intelectual. Por isso Platão considera o conhecimento como reminiscência (lembrança). Mas, trazer à memória o que foi conhecido no mundo inteligível não é tarefa fácil, porque o corpo, sede das paixões e desejos, engana e dificulta a percepção direta dessas essências. Esta é a inglória tarefa do filósofo. 

Apesar de tudo, a alma humana, mesmo quando habita um corpo, aspira por essa contemplação originária que realizara no mundo das ideias. Por isso há uma espécie de tendência ou inclinação do homem pelas coisas verdadeiras, isto é, pelas coisas em si (BEM, JUSTIÇA, BELEZA, etc.), capazes de conduzí-lo à felicidade. Para tanto, é preciso elevar-se deste para o mundo supra-sensível.

É assim que EROS constitui a força mediadora entre o sensível e o inteligível, num movimento que a alma realiza com vistas à ligação originária com o mundo das idéias. E o verdadeiro amante, para percorrer esse caminho que nos afasta do corpo e nos leva à percepção das coisas em si, precisa, no sentido epistemológico (do conhecimento), ser VIRTUOSO, ou seja, precisa ter espírito filosófico.   

Mas isso não quer dizer que Platão despreze o amor físico, como muitos incautos pensam. Ele apenas o considera num nível inferior de manifestação da alma. Amamos o que é sensível porque este plano, enquanto cópia, nos remete à perfeição que existe no mundo das ideias, constituindo um caminho para atingir aquele plano superior de existência. Um belo corpo, por exemplo, participa da ideia de beleza em si, que somente existe no supra-sensível. 

Um nível mais elevado de relação amorosa ocorre quando o homem se relaciona com os seres que são diretamente intuídos pelo espírito, como as ideias de justiça, lei, ciência, etc. Convém lembrar que no "mundo das ideias" também existem as formas perfeitas de coisas não tangíveis. Esses seres igualmente nos remetem aos seus correspondentes verdadeiros, porém com mais eficiência que os objetos da sensibilidade, visto que não são suscetíveis às influências negativas do corpo.

No cume da escala da relação amorosa está o amor pelas COISAS EM SI, que não são provenientes do espírito nem do corpo, mas que estão no mundo das ideias como entidades objetivas. Este é um tipo de amor quase divino. A alma o experimenta quando se desliga totalmente do corpo. Por isso sua realização é própria dos homens capazes de ascender, pelo exercício da dialética, ao mundo das ideias. É uma realização tão elevada e difícil que Platão a considera como um apanágio dos deuses.

Eis que o amor platônico é uma espécie de NOSTALGIA DO ABSOLUTO, desejo de perfeição, tensão mediadora que torna possível a elevação do sensível ao supra-sensível, força que tenta conquistar a dimensão do divino. Em contrapartida, e em sentido oposto, o Amor Cristão (ágape) é DESCIDA de Deus em direção dos homens. Não é conquista, mas dom. Não é algo motivado pelo valor do objeto ao qual se dirige, mas, ao contrário, algo espontâneo e gratuito.

Para os gregos é o homem quem ama, não Deus. Para os cristãos é, sobretudo, Deus que ama: o homem somente pode amar na dimensão do novo amor realizando uma revolução interior radical e assemelhando o seu comportamento ao de Deus.

Pela gratuidade e ilimitude que o amor cristão expressa não há diferença alguma entre amar um ladrão ou uma pessoa honesta, posto que devemos “amar o próximo como a nós mesmos” para nos aproximarmos do propósito moral cristão. Essa é a realização extraordinária que este tipo de amor impingiu à cultura ocidental, visto existir uma desproporção flagrante entre o dom e o beneficiário dele. O perdão e a misericórdia são os principais componentes dessa revolucionária forma de existir no mundo.

De Adão e Eva à Genoíno e José Dirceu, todos os seres humanos são filhos de Deus e dignos do seu amor, afinal, é a imperfeição humana que nos faz amantes. É preciso, pois, ser VIRTUOSO para vivenciá-lo. No sentido platônico, conhecendo a verdade; no cristão, perdoando os pecados alheios.                              

domingo, 13 de janeiro de 2013

Os intelectuais são aqueles que, como os místicos, adivinham o futuro (Ou: ”Uma metodologia do trabalho não científica”)

Os profissionais que fazem PLANEJAMENTO são os mais requisitados do mercado, justamente por saberem lidar com o futuro. Eles partem da crença na existência de uma ordem invisível, mas cognoscível, que regula o comportamento da natureza. Para aprendê-la constroem MODELOS de funcionamento da realidade, que são esquemas abstratos (hipotéticos) com os quais explicam a ocorrência dos fenômenos. Ao contrário do que se pensa comumente, o planejamento não parte dos fatos, mas tem a sua validade confirmada (ou não) por eles.

O mais interessante é que o homem em nível empírico também constrói padrões (MODELOS) de funcionamento da realidade, porém confirmados por um número pequeno de fatos, no entanto, precipitadamente, são considerados com a mesma validade dos conhecimentos que são confirmados pela maioria das ocorrências. Na ciência e filosofia a razão encontra assento na regra; no senso comum, nos casos isolados. Mas todos são construções intelectuais que orientam o homem ante os mais variados problemas. Nesse contexto, dizer que “manga com febre é letal”, tem a mesma origem epistemológica que “Um corpo de massa maior atrai o de massa menor”.

Isso prova que, seja em nível científico, filosófico ou empírico, o FUTURO é concebido como algo que pode ser conhecido e influenciado pelo homem. Nos diversos discursos humanos essa crença está implícita: “No futuro a semente será uma árvore”, “Amanhã o sol vai nascer”, “Os radicais livres aceleram o envelhecimento das células”, etc.  

Acreditamos nessa possibilidade, porque os fenômenos naturais observam certa relação de necessidade entre si (nexo de causalidade) ou, como denominaram os modernos, possuem “comportamento mecânico”. E como o homem também integra a natureza, é razoável supor que o seu pensamento e conduta seguem os mesmos princípios mecanicistas.  

No entanto, além de mecânico o mundo é inteligente, pois, embora se comporte com certa regularidade em determinados casos, é capaz, em outras situações, de buscar soluções que não estavam inscritas em sua matriz natural, ou seja, adaptando-se a situações novas.

São essas faculdades que permitem ao ser humano antecipar-se aos acontecimentos e construir MODELOS de funcionamento da realidade. Para isso concatena os fatos logicamente a partir da compreensão das relações íntimas que possuem. É sempre bom lembrar que a lógica seleciona o necessário e descarta o contingente. Foi assim, como um processo darwiniano, que os diversos conhecimentos do mundo se tornaram possíveis.

Partindo da crença de que as manifestações naturais e psicológicas observam certa regularidade, é possível “prever” os fatos, recorrendo a todo conhecimento construído pelo homem ao longo da história, isto é, recorrendo à cultura. É a partir do que foi produzido pelos nossos antepassados que elaboramos as teorias sobre a natureza, selecionando o que é relevante e ignorando o que consideramos desprezível.

É dessa forma que construímos modelos de funcionamento da realidade. Alguns modelos são bons outros não. No mundo capitalismo hodierno, por exemplo, é consagrada a hipótese na qual o homem social e economicamente bem posicionado é feliz. Mas podemos dizer, com outro padrão teórico, que essa compreensão é limitada por desconsiderar o aspecto emocional ou psicológico, que em muitas situações concretas (fatos) se mostra mais importante. Quando um ente querido corre perigo, por exemplo, somos capazes de empenhar verdadeiras fortunas para salvá-lo.

É preciso, como foi dito alhures, usar o passado para projetar o futuro, inclusive no mundo psicológico e moral, afinal neste âmbito a mecanicidade também está presente. Para organizar as informações usa-se a razão, seja em forma de raciocínio, que é próprio do discurso; ou de intuição, enquanto visão imediata das coisas, embora ambos (discurso e intuição) sejam metades de um mesmo trabalho intelectual. Somente faz boas intuições quem percorreu os penosos caminhos do discurso, e vice-versa.

Para lidar com os fatos (futuros) “os deuses” nos deram uma ferramenta espetacular, a IMAGINAÇÃO, mas quando mal utilizada pode nos conduzir às fantasias e ilusões. Para conter o ímpeto delirante do nosso pensamento é importante estabelecer METAS e OBJETIVOS factíveis e iniciar a sua persecução num curto lapso temporal. É preciso começar a agir imediatamente para tornar o “SONHO” vigente e factível. Uma idéia que fica somente no pensamento se transforma em fantasia. Ex: A idéia de um emprego público que não é sucedida de uma estratégia de estudo para aprovação no concurso é ilusão.

O futuro é apreendido pela imaginação, mas requer planejamento e objetivo (metas). Para selecionar as informações disponíveis é preciso saber onde obtê-las e aonde se quer chegar. Não se traça um itinerário sem um destino certo. Delimita-se o objetivo para depois determinar os instrumentos a serem utilizados.  Mas, circunscrever e realizar metas é uma ARTE que requer acurado trabalho mental. Se a projetarmos para um futuro longínquo, a sucessão infinita de etapas poderá tornar o objetivo inalcançável; se perto demais, o objetivo poderá surgir antes da realização de etapas necessárias para a sua satisfatória consecução. É como dirigir um carro, não se deve olhar para a “linha do horizonte”, nem para o pára-choque dianteiro. Em ambos os casos a condução do veículo será prejudicada.

Apesar da aparente inconstância do mundo em diversas situações, como disse Maquiavel na obra “O Príncipe”, é possível dominar a Fortuna, o acaso, o inesperado e se adequar aos fatos adversos quando se tem sabedoria na ação.

Além da imaginação, a consciência do tempo presente é importante para lidar com o futuro. Surge, assim, outra ferramenta que está disponível ao homem que sabe agir: o SENSO DE INICIATIVA ou OPORTUNIDADE. Para isso é preciso estar atento e conhecer os modelos que tratam do objeto que se quer controlar.

A iniciativa não pode ser transferida para outrem, senão o futuro se vinculará a um fator alheio e tornar-se-á incontrolável. A mesma lógica contempla o que chamamos de “Direção Defensiva”, ou seja, no trânsito, há sempre o que podemos fazer para evitar um acidente, se não transferirmos a iniciativa para o outro.

Como foi dito, é com a consciência do tempo passado que se planeja o futuro. Os especialistas são aqueles que recorrem à MEMÓRIA da humanidade (cultura) para prever os acontecimentos. Para tanto o homem utiliza o recurso poderosíssimo da linguagem simbólica. Mas é preciso destreza para trazer à baila apenas as coisas (materiais ou emocionais) que são relevantes para a ação que se quer empreender no presente. É preciso habilidade para descartar o desnecessário, senão o trajeto será emperrado com uma sobrecarga de coisas que apenas atrapalharão a conduta. No campo comportamental preservar certos pensamentos e sentimentos pode ser extremamente prejudicial. É nesse diapasão que o perdão, para os Cristãos, liberta o homem e o torna apto para a ação.

É preciso se descolar, se libertar das coisas concretas ou abstratas que prendem o homem a situações irrelevantes no presente. As doenças mentais, por exemplo, surgem quando o homem não consegue se desvincular de certas coisas e as “rumina” sem qualquer utilidade para a sua vida prática. Esse desapego é fundamental para assegurar a eficácia da iniciativa com vistas ao controle dos fatos futuros.

Assim, o homem possui instrumentos para lidar com o passado, presente e o futuro. Se souber lidar com esses instrumentos será capaz de dominar, “como um Deus”, o tempo, tornando-se um cientista, religioso, político, artista ou filósofo.      

·       Referências:

- Palestra: “Como lidar o futuro?” (professor Luis Carlos Marques);
- Filosofia da Ciência (Rubem Alves);
- O príncipe (Maquiavel).