domingo, 26 de fevereiro de 2017

No início era o princípio (Ou "Os fundamentos da realidade")


Não há como compreender a forma de pensar do homem ocidental moderno sem a apreensão de um conceito fundamental, o de PRINCÍPIO. Desde os pensadores Pré-Socráticos até os teóricos da mais fina ciência, de uma forma ou de outra, basearam a estrutura de suas teorias na busca de ideias unificadoras capazes de explicar, dentro de um determinado campo de fenômenos, a realidade. Essas ideias universais partem do pressuposto de que é possível capturar o que há de homogêneo nos acontecimentos da vida, seja pelo viés das especulações científicas, filosóficas, artísticas, empíricas e até religiosas e míticas. Absolutamente nada foge ao alcance desse conceito. Ele funciona como o terreno fértil onde as sementes do pensamento ocidental foram plantadas e proliferaram.

Logicamente que o conceito de PRINCÍPIO não está aqui posto na acepção de início ou prenúncio de um acontecimento qualquer, mas como fundamento lógico e universal dos fatos que normalmente consideramos como componentes da realidade. PRINCÍPIOS são sobretudo ideias (pensamentos ou teorias) de alcance geral (universal), que são literalmente "descobertos" e com as quais se tenta explicar, compreender, interpretar e conhecer um conjunto de fatos tidos como pertencentes a uma mesma categoria ou modalidade de fenômenos. Convém ressaltar que essas "teorias universais" tem o seu principal escopo no campo epistemológico, ou seja, o de viabilizar a explicação da realidade, embora, eventualmente, e apenas como desdobramento de algumas de suas características fundamentais, permitam a produção de um efeito prático no mundo.    

 
Como consequência da sua natureza universal, os PRINCÍPIOS são, sobretudo, abstrações, ou seja, algo que, de certa forma, somente podem ser capturados pelo pensamento racional. Embora eles estejam presentes, de forma implícita, em todos os acontecimentos reais, não é possível percebê-los com os órgãos da sensibilidade. Para capturá-los (fazê-los aparecer) é preciso intuí-los por meio de uma estratégia racional. Ao longo da história do conhecimento humano, vários métodos foram utilizados para desvelá-los e assim permitir ao homem a interpretação dos mais diversos acontecimentos.  

Os PRINCÍPIOS também são, nos diversos campos do conhecimento, denominados de FÓRMULAS, LEIS, PADRÕES, MODELOS, etc., mas não importa a palavra ou conceito que utilizemos para designá-los, pois sempre que uma ideia geral pode ser aplicada com o condão de elucidar um conjunto de fenômenos semelhantes, ali residirá um princípio. Como exemplo, quando um professor ensina que, para calcular a área de um piso, parede, quadro escolar ou de uma simples folha de papel A4, basta aplicarmos a estratégia teórica de somar um lado pelo outro (ou base x altura), temos aí a "fórmula universal" que aqui denomino de PRINCÍPIO.

Mesmo presente em todas as áreas do saber humano, é no campo filosófico e científico que eles residem com mais excelência, haja vista que é intrínseco a esses conhecimentos permitir ao homem explicar a natureza a partir de ideias universais. Porém, os filósofos e cientistas não os CRIAM, mas os "descobrem" no sentido estrito do termo, na medida em que estão "por trás" da realidade visível, logo somente podem ser capturados pelo intelecto, razão pela qual podermos dizer que eles preexistem a todo e qualquer processo cognitivo, podendo apenas, em determinado momento histórico, ser revelados por um ou mais seres humanos a quem foi dado o poder de conhecê-los, transcrevendo-os numa fórmula, lei ou modelo aplicável a um determinado conjunto de fatos . Nesse sentido, podemos dizer que não há conhecimento sem a apreensão desses conceitos reveladores do ser das coisas, com os quais nos tornamos habilitados a pensar cientifica e filosoficamente o mundo.

As excludentes de ilicitude, como a legítima defesa, no campo do Direito Penal, é um exemplo de princípio; No Direito Administrativo, temos a impessoalidade, publicidade, eficiência e outros princípios aplicáveis a essa área do pensamento jurídico. Na física, as Leis da Inércia e da Dinâmica são princípios. As Leis da Conservação da Energia (Princípio de Joule) e da massa são princípios Químicos. Os teoremas de Pitágoras, Ptolomeu e Tales, são na matemática; bem como o Positivismo, Evolucionismo e o Organicismo o são no âmbito da sociologia. A AMIZADE, por outro lado, é um princípio do pensamento cristão e o CONHECIMENTO e o "imperativo categórico" são princípios da ética socrática e kantiana, respectivamente. Enfim, toda teoria ou pensamento geral com o qual o homem tente dar conta de um determinado campo da realidade, considerando como tendo alguma homogeneidade em suas manifestações, constituem aquilo que aqui, por questões puramente didáticas, chamo de fundamentos da realidade ou simplesmente PRINCÍPIOS.       

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