sábado, 31 de março de 2012

Arte como forma de pensamento (Extraído de textos didáticos)


O artista é aquele que reconhece de maneira nova inusitada aquilo que está na percepção de todos, mas que, ninguém percebe. Que mundo é trazido pelo artista? Aquele eternamente novo. Eternamente, por que tão antigo quanto a percepção humana. Novo, por que ele percebe como nunca fora percebido pelos outros.
1- Arte é conhecimento intuitivo do mundo

Assim como o mito e a ciência são modos de organização da experiência humana – o primeiro baseado na fé e na crença e o segundo na razão –, também a arte vai aparecer no mundo humano como forma de organização, como modo de transformar a experiência vivida em objeto de conhecimento, desta vez através do sentimento.

O entendimento do mundo, não se dá somente por meio de conceitos logicamente organizados, estão longe do dado sensorial, do momento vivido. Ele também pode se dá através da intuição, do conhecimento imediato, da forma concreta e individual, que não fala à razão, mas ao sentimento e à imaginação.

E a arte é um caso privilegiado de entendimento intuitivo do mundo, tanto para o artista que cria obras concretas e singulares quanto para o apreciador que se entrega a elas para penetrar-lhes o sentido.

O verdadeiro artista intui a forma organizadora dos objetos ou eventos sobre os quais focaliza sua atenção. Ele vê, ou ouve o que está por trás da aparência exterior do mundo. Por exemplo, no filme Amadeus, de Milos Fortnan (Oscar de 1985), há uma cena que mostra didaticamente esse processo. A sogra de Mozart, emocionada e muito irritada, conta ao compositor por que a filha dela o abandonou. Mozart, que a princípio realmente procurava uma resposta para essa questão, lentamente deixa de prestar atenção às palavras para sintonizar com a melodia e ritmo do discurso. Ele ouve a musicalidade por trás do discurso inflamado e compõe uma ária para A flauta mágica. Assim, como´todo artista, Mozart percebe, pelo poder seletivo e interpretativo dos seus sentidos, formas que não podem ser nomeadas, que não podem ser reduzidas a um discurso verbal explicativo, pois elas precisam ser sentidas, e não explicadas. A partir dessa intuição, o artista não cria mais cópias da natureza, mas, sim, símbolos dessa mesma natureza e da vida humana.

Esses símbolos, portanto, não são entidades abstratas, não são entes da razão. Ao contrário, são obras de arte, objetos sensíveis, concretos, individuais, que representam por semelhança de forma, a experiência vital intuída pelo artista. Essa "interpretação só é possível em termos de intuição e não de conceitos, em termos de forma sensível e não de signos abstratos”.

A apreensão do concreto, do imediato, do vivido, é transportada para uma outra obra que, ela também, é um objeto concreto para o espectador. Assim, quando apreciamos uma obra de arte, fazemo-lo através dos nossos sentidos: visão, audição, tato, cinestesia e se a obra for ambiental, até o olfato.

É a partir dessa percepção sensível que podemos intuir a vivência que o artista expressou em sua obra, uma visão nova, uma interpretação nova da natureza e da vida. O artista atribui significados ao mundo por meio da sua obra. O espectador lê esses significados nela depositados.

Podemos dizer, então, que na obra de arte o importante não é o tema em si, mas o tratamento que se dá ao tema, que o transforma em símbolo de valores de uma determinada época.

A luz, a cor, o volume, o peso, o espaço, enquanto dados sensíveis, não são experimentados da mesma maneira na vida do dia-a-dia e na arte. No cotidiano, usamos esses dados para construir, através do pensamento lógico, o nosso conceito de mundo físico. Em arte, esses mesmos dados são usados para alargar o horizonte de nossa experiência sensível. Por exemplo, pelo uso incomum de cores ou sons, pela organização inusitada de um espaço, pela textura ou forma dada a um material, a nossa própria perspectiva da realidade é alterada. O artista não copia o que é; antes cria o que poderia ser e, com isso, abre as portas da imaginação.

1.1 O papel da imaginação na arte

O ponto de partida para todos os sistemas da estética tem de ser a experiência pessoal de uma emoção peculiar. Os objetos que provocam tal emoção chamamos obras de arte. Cada obra de arte produz uma emoção diferente. Esta emoção é chamada emoção estética, e se pudermos descobrir alguma qualidade comum e peculiar aos objetos que a provocam tal efeito, teremos descoberto a qualidade essencial numa obra de arte, a qualidade que distingue as obras de arte de outras classes de objetos.

Amadeus, de Milos Fortnan, Oscar de 1985

É exatamente a imaginação que vai servir de mediadora entre o vivido e o pensado, entre a presença bruta do objeto e a representação, entre a acolhida dada pelo corpo (os órgãos dos sentidos) e a ordenação do espírito (pensamento analógico).

A imaginação, ao tomar o mundo presente em imagens, nos faz pensar. Saltamos dessas imagens para outras semelhantes, fazendo uma síntese criativa. O mundo imaginário assim criado não é irreal. É, antes, pré-real, isto é, antecede o real porque aponta suas possibilidades em vez de fixá-lo numa forma cristalizada. Assim, a imaginação alarga o campo do real percebido, preenchendo-o de outros sentidos.

1.2 Etimologia da palavra estética

A palavra estética vem do grego aisthesis e significa "faculdade de sentir", "compreensão pelos sentidos", "percepção totalizante", significa a ação genérica de sentir; aquilo que está vinculado aos sentidos, às sensações. Está preocupada com o estudo do belo e isso somente é possível em face da obra de arte com seus princípios inerentes. A obra de arte, como manifestação sensível das idéias, da inteligibilidade de um sujeito humano, nos abre à possibilidade de reflexão a respeito de suas peculiaridades, suas características enquanto manifestação que cria a cultura dos homens.

Assim, a obra de arte é em primeiro lugar, individual, concreta e sensível, oferece-se aos nossos sentidos; em segundo lugar é uma interpretação simbólica do mundo, sendo uma atribuição de sentido ao real e uma forma de organização que transforma o vivido em objeto de conhecimento, proporciona a compreensão pelos sentidos; ao se dirigir, enquanto conhecimento intuitivo, à nossa imaginação e ao sentimento, torna-se objeto estético por excelência.

A Aesthesis como uma dimensão própria do homem, tem despertado, desde a Grécia antiga, interesse e preocupação no ser por aquilo que, efetivamente, o agrada. Essa disposição ao questionamento do belo, a busca incessante pela compreensão e delimitação do conceito de beleza move a estética no transpassar da vida humana como disciplina filosófica, como mera fruição, como criação, como um ideal ou como uma ruptura.

O termo estética foi empregado pela primeira vez por Baumgarten, notadamente em sua obra de 1750, Aesthetica, significando em primeiro lugar a ciência da percepção própria dos sentidos, em oposição à do conhecimento intelectual. Trata-se de uma ciência oposta à lógica e que tal autor designou de conhecimento obscuro e inferior, tendo sua fonte na sensação, na experiência sensorial.

Baumgarten assinalou como fim da estética a perfeição do conhecimento sensorial como tal, onde reside a beleza; a ciência do belo cujo núcleo vem constituído pela doutrina filosófica sobre a beleza.

1.3 Conceituação de estética: no uso vulgar, em artes e filosofia

O que é a estética?

O ramo da filosofia a que se dá o nome de estética inclui um conjunto de conceitos e de problemas tão variado que, aos olhos daquele que se inicia no seu estudo, pode parecer uma matéria demasiado dispersa e inacessível. Essa primeira impressão é compreensível, mas ultrapassável. Uma maneira de desfazer tal impressão é começar por esclarecer que a estética é a disciplina filosófica que se ocupa dos problemas, teorias e argumentos acerca da arte. A estética é, portanto, o mesmo que filosofia da arte. Mas há um problema com esta forma de apresentar a estética: o termo estética não tem sido sempre utilizado nesse sentido.

Na tentativa de desfazer essa dificuldade, a estética é muitas vezes apresentada como a disciplina filosófica que se ocupa dos problemas e dos conceitos que utilizamos quando nos referimos a objetos estéticos. Só que isso pouco adianta se não soubermos antes o que se entende por objetos estéticos. Podemos, contudo, acrescentar que os objetos estéticos são os objetos que provocam em nós uma experiência estética. Mas, resta-nos insistir e perguntar: O que é uma experiência estética? Uma resposta possível, mas sem ser circular – sem voltar ao princípio e afirmar que uma experiência estética é o que resulta da contemplação de objetos estéticos

No entanto, fazendo um levantamento do uso comum da palavra estética encontramos: Instituto de Estética e Cosmetologia, estética corporal, estética facial etc. Essas expressões dizem respeito à beleza física.

Se continuarmos a procurar, saindo agora do uso comum e entrando no campo das artes, encontraremos expressões como: estética renascentista, estética realista, estética socialista etc. Nesses casos, a palavra estética, designa um conjunto de características formais que a arte assume em determinado período e que poderia, também, ser chamado de estilo.

Resta, ainda, outro significado, mais específico, usado no campo da filosofia que se ocupa das questões tradicionalmente ligadas à arte, como o belo, o feio, o gosto, os estilos e as teorias da criação e da percepção artísticas. Sob o nome estética entende-se o ramo da filosofia que estuda racionalmente o belo e o sentimento que suscita nos homens.

Assim, mesmo em filosofia, a estética aparece ligada à noção de beleza. E é exatamente por causa dessa ligação que a arte vai ocupar um lugar privilegiado na reflexão estética, pois, durante muito tempo, ela foi considerada como tendo por função primordial exprimir a beleza de modo sensível.

É, pois, como filosofia da arte que a partir que se pode falar de estética. A filosofia da arte é, por sua vez, formada por um conjunto de problemas acerca da arte, para a resolução dos quais concorrem diferentes teorias.

 

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